Mais uma vez nosso amigo Evaldo, da Lost Rally Team, vem contar como foi sua participação no Mitsubishi Motorsports junto com o Reginaldo, seu piloto, dessa vez na Turismo (depois de sofrer pouca pressão do pessoal para mudar de categoria 🙂 ). Confiram aqui como foi essa aventura!

.

A semana passada começou como era esperado, tudo muito corrido para conseguir apertar a agenda em apenas quatro dias e deixar a sexta-feira apenas para o rally, o que inclui os preparativos, arrumar mala, separar o equipamento, pegar a estrada e completar o ritual na secretaria de prova. Semana corrida mas com a expectativa de muita diversão para compensar.

Mas desta vez a correria foi menor. Estava acostumado a pegar a estrada com muita antecedência para tentar ser o primeiro carro a largar na categoria Turismo Light, mas agora a situação era diferente. Essa era nossa segunda prova na Turismo e nessa categoria não adianta correr para chegar cedo, nós iríamos largar lá no final mesmo, independente da hora em que chegássemos. Na turismo a ordem de largada é definida pela classificação na última prova e no campeonato, ou seja, seria bem no final mesmo.

Sendo assim, almoçamos em São Paulo, eu e o Reginaldo, meu piloto, e ainda passamos para pegar o José e o Wilson que iriam navegar outros carros na prova. Viagem tranquila sem contratempos.

Chegando em Ribeirão, nada de passar no hotel, fomos direto para o local do evento, afinal fomos lá para a prova e não para fazer turismo em Ribeirão Preto.

Passagem rápida pela secretaria de prova e o número 54 estava reservado para nós. Como de costume a organização estava impecável. Carreguei a planilha eletrônica nos tablets. Aí começa a diversão, encontramos muitos amigos e pessoas que fazem a prova ser apenas uma parte do que me leva para os rallys.

Já no briefing dá para perceber que não será moleza, muitas equipes boas estariam lá disputando conosco, mas a nossa expectativa ainda é apenas ganhar experiência e qualquer resultado mais expressivo ainda está fora de cogitação, ao menos por enquanto.

Saindo do briefing fomos jantar com boa parte da equipe Lost Rally Team, o que sempre é garantia de uma noite agradável e de boas risadas.

Mas dessa vez havia uma preocupação a mais. Na última etapa, nossa primeira na categoria, fiquei completamente perdido em um balaio e estava bem preocupado de que isso acontecesse novamente (estou procurando a mamona até agora). Assim, mesmo chegando depois da uma hora da manhã no hotel, fui estudar a planilha eletrônica e tentar desenhar os balaios. Fui dormir depois das duas e ajustei o despertador para 6hs45min, ou seja, não ia ser fácil acordar.

Acordei preocupado com os balaios, uma novidade da categoria que vinha tirando o meu sono.

Já não tinha mais o que fazer, o negócio era tentar relaxar e se concentrar, pois uma coisa que eu aprendi é que os erros geralmente acontecem comigo no rally por falta de concentração. Então, com muita calma, fomos para a largada.

Como há uma promessa de que no ano que vem não haverá mais planilha de papel, apenas a eletrônica, decidimos nem olhar para a planilha de papel e fazer tudo pelos tablets, afinal, mudamos de categoria no meio do ano justamente para nos adaptarmos à nova categoria e começarmos o ano que vem com menos tropeços (além, é claro, do “apoio” que vínhamos tendo para mudar de categoria).

1

Como sempre as largadas estavam sendo feitas exatamente no horário previsto. Saímos para o deslocamento inicial e deu para conferir a aferição dos equipamentos, que estava perfeita.

Largamos no trecho cronometrado e começou a correria. Para quem acabou de vir da Turismo Light tudo parece muito rápido, com médias altas e referências curtas. As médias altas dão trabalho para o piloto, mas ele estava se divertindo.

Já eu navegava ainda pensando que a coisa ia complicar quando chegassem os balaios e, na noite anterior eu havia identificado pelo menos dois na planilha. A meta era não perder nenhum PC, ainda que passássemos atrasados.

O piso estava seco com aquela poeira vermelha característica da região.

Um erro pequeno logo no início já serviu para tirar a concentração. Entramos em uma trilha à esquerda quando a entrada certa estava a uns 3 metros à frente. Percebemos rápido e demos ré, mas alguns segundos já haviam sido perdidos. Aumentou a correria para poder voltar para o tempo.

Veio o primeiro balaio e eu peguei os meus desenhos. Fizemos sem errar o caminho, mas perdemos quinze segundos e ficamos com a impressão de que teríamos feito melhor sem olhar o desenho, apenas seguindo a planilha. Seguir em frente e se preparar pois eu sabia que o outro balaio seria mais longo e provavelmente mais difícil.

A prova estava rápida e o carro pulava muito, até que o tablet principal escorrega do suporte e desliga. Demora uns segundos para entender o que estava acontecendo e seguir a prova com o tablet do piloto.

Aí a correria e os pulos aumentam ainda mais para recuperar os segundo perdidos. No primeiro neutro deu para por tudo em ordem.

Seguimos na prova quando começa um barulho no carro e imaginamos que algum galho estava preso embaixo do carro. Depois de muitos quilômetros o barulho começou a preocupar. Paramos para ver e descobrimos que um defletor havia se soltado completamente e estava apoiado sobre o eixo cardan, fazendo todo aquele barulho. Seguimos até o neutro que estava próximo e no posto o Reginaldo conseguiu arrancar o defletor, o que acabou com o barulho.

Minhas anotações na planilha indicavam que o outro balaio era logo à frente. Tenso, eu dou uma olhada no desenho que havia feito na noite anterior, tento memorizar o caminho e jogo o desenho no chão.

Começa o balaio e bem no meio eu canto para o piloto virar à direita em tal metragem, ele pergunta: “Aqui?” e vem a dúvida: pelo que eu lembro dos desenhos deveria ser aqui, mas a metragem não bate, ainda não pode ser aqui. Até que ele percebe que o cabo do Evo soltou e ele parou de marcar os metros percorridos.

Desconecta e conecta novamente o cabo do Evo e ele volta a funcionar. Ok, isso acontece, mas precisava ser aqui?!. Continuamos e toca corrigir a metragem no meio do balaio.

Aí a confiança e a concentração já estavam abaladas e no meio daquela confusão a tulipa mandava seguir em uma direção e eu acho que a estrada é muito fechada. Pronto erramos, eu falei. Volta tudo e refaz o caminho para descobrirmos que não havíamos errado na primeira passada. Foi o suficiente para ficarmos uns 2 minutos atrasados, o que acaba com a prova. Mas vamos em frente.

A correria aumenta muito e mesmo com todos os truques para fixar os equipamentos o carro estava pulando muito e os equipamentos insistiam em cair.

Mais um pouco e o suporte do tablet principal cai, danificando o cabo do carregador. Joga o suporte no chão, troca o cabo e segura o tablet em uma mão, pois a outra segurava a botoeira. Mais uns segundos perdidos e mais correria para voltar para o tempo.

Até que quase no final da prova a planilha manda entrar à esquerda, eu cantei a entrada para o piloto e ele me olha: “Aqui?” É, a metragem bate com precisão, “É, aí mesmo”. Entramos. Perdemos uns segundos pois a dúvida e a insegurança nos fazem diminuir o ritmo, mas poucos metros à frente a referência bate e percebemos que estamos no caminho certo. Não vou me estender nesta questão pois essa tulipa gerou muita discussão. No fim, o PC que tinha ali foi cancelado, o que não foi bom para nós pois tínhamos acertado, mas para nós isso não teria feito muita diferença no resultado.

A prova foi bem divertida, com pouco deslocamento e a maior parte da prova em áreas fechadas, passando por canaviais e reflorestamentos, o que deixou a prova bem rápida mas sem comprometer a segurança.

No final da prova eu estava bem cansado e  não via a hora da prova acabar. Alguns disseram que o visual estava bonito mas isso eu não posso dizer pois com tanta correria não deu para aproveitar a paisagem, mas eu ainda chego nesse nível.

Cumprimos nossa meta de não perder nenhum PC. Mas eu fico com a impressão que cinco horas e quarenta e três minutos de prova ainda é um pouco demais para mim. Acho que vou demorar para me acostumar com provas tão longas.

O saldo sem dúvida alguma é positivo. O rally para mim é muito mais do que uma prova ou uma competição automobilística, é uma grande oportunidade de encontrar os amigos, sair da rotina, viajar e com certeza me divertir muito, independente do resultado na prova.

Que venha Campos do Jordão!