Sylvio de Barros, piloto de rally que estreiou e terminou com maestria o rally mais difícil do mundo, o rally Dakar em 2017, ficando em 18º entre os melhores pilotos de rally do mundo. Confira o texto que Sylvio publicou em sua rede social.

Prestes a completar meio século de existência, não lembro da última vez que fiz uma lista de presentes de natal.

Apaixonado por aventuras, desafios, superação e as possibilidades do nosso tempo, o maior Rally do Mundo, estava ali parado entre as coisas por fazer antes de morrer, como se soubéssemos quando. Mas fazê-lo no controle de um carro campeão de 3 edições parecia sonho impossível. Inédito para um brasileiro.

No dia 22 de dezembro do ano passado recebo uma ligação de um dos membros da equipe X-Raid MINI. Um de seus pilotos havia se contundido, e havia um carro pronto para largar no Dakar 2017 que começaria no dia 2 de janeiro, em 12 dias. Como eu havia testado o carro em Portugal em novembro, eu seria candidato a vaga.

Apesar de significar 15 dias e um reveillon inédito longe da família não foi difícil convencê-los a aceitar o presente de natal, 10 anos depois de duas frustradas participações em duas rodas.

O Dakar é o maior Rally do mundo, uma das maiores aventuras de nosso tempo porque leva pilotos e máquinas ao extremo, física, mental e tecnicamente. Metade dos que tentam chegam ao final e alguns perdem a vida tentando.

Nesta edição não foi diferente.

Durante 13 dias, temperaturas de 0 a 47 graus, altitudes de 1000 a 5000 metros.

Neve, areia, dunas gigantes e tão verticais que pareciam ter ângulos negativos, pedras, caminhos trilhados ou por trilhar. Chuva, terrenos alagados. Lama, que ao secar em contado com os vidros limitava a visibilidade e, em contato com os radiadores, bloqueava sistema de refrigeração do motor. Uma experiência intensa em que se têm a sensação de expandir o espaço/tempo e surpreender-se com a capacidade humana de manter-se atento em interação e aprendizado sobre os limites de uma máquina tão fantástica, por até 1000 km e 20 horas seguidas.

Ahhhhhh, a máquina….

A carroceria em fibra de carbono no formato do MINI esconde um protótipo que nos remete a engenharia aeronáutica. Sistemas duplicados e redundantes garantem que o motor diesel BMW capaz de entregar quase 100kg de torque nunca pare. A suspensão e a geometria garantem tração e frenagens impressionantes nas condições mais variadas de piso. A resistência do projeto é inacreditável (pude provar em choques laterais e frontais em árvores, em outro competidor em barranco que invadiu a pista, além de uma “capotadinha” básica, além de rodar em 3 rodas).

Situações imprevisíveis como estar completamente perdido, sem saber, nem para onde voltar, como controlar a carro a 160 KM por hora depois que a roda dianteira esquerda resolveu nos abandonar (na etapa maratona em que temos que fazer a manutenção do carro sem ajuda dos mecânicos, troquei a roda sem limpar adequadamente as porcas de fixação da roda)
Cenários insólitos dignos de MadMax, como em Tupiza onde homens com panos improvisados como máscaras e óculos das mais variadas cores bailavam nas mais estranhas máquinas em meio a uma tempestade de areia que invadia o acampamento.

Apesar da origem francesa, o Dakar é uma torre de babel onde se fala dialetos dos mais variados cantos do mundo.

Na nossa equipe não era diferente. Apesar da origem alemã do reservado, cirúrgico e experiente Sven, com pouco menos de 30 Dakares na bagagem, sua língua misturava-se ao árabe, francês, inglês, italiano e português entre pilotos sheiks e mecânicos portugueses e brasileiros. Orgulhoso das suas máquinas, o todo poderoso dos bastidores do maior Rally do mundo, acredita que o futuro está nos 4×4 apesar de estar preparando um Buggy 4×2 para tirar vantagem , principalmente, do controle de pressão dos pneus de dentro da cabine e do peso, pelo menos 500 kg menor, para fazer frente aos Peugeots que veem dominando a competição.

Apesar da fama e patrocínio de uma das maiores montadoras do mundo , estrutura da equipe de 150 pessoas é familiar com ele e seus dois filhos no comando.

No Dakar, o aspecto competitivo da natureza humana é estimulado ao limite onde criadores, organizadores e um circo de mídia incentivam homens e máquinas ao limite da performance que não deveria nunca ser alcançado em uma prova de resistência e longa duração.

Nesta edição de 2017, a navegação foi o aspecto mais explorado pelos organizadores. Pegadinhas nos mapas e mudanças nas regras de apresentação de dados no GPS lacrado que vai no carro, fizeram até as duplas mais experientes andarem em círculos pelos terrenos mais áridos da Argentina e Bolívia. Conosco não foi diferente. Apesar da pressão recair sobre o guerreiro navegador italiano de Caxias do Sul, a responsabilidade é da dupla, e nossa inexperiência fez com que despencássemos de uma ótima 11a colocação no 4o dia da prova. Mas Dkar é o Dakar, e terminar entre os 20 (18o, terceiro entre os novatos) é uma grande satisfação.

Teorias da conspiração não poderiam ficar de fora no circo do Dakar. Circula pelo Bivuac, acampamento montado diariamente nas cidades destino das etapas que uma equipe francesa com pilotos franceses em uma competição organizada por franceses é praticamente imbatível. Informações privilegiadas sobre navegação fariam toda a diferença neste Dakar.

Agradeço muito a todas mensagens de apoio e torcida que recebi.
Dos parceiros da aventura, o co-piloto Rafel Capoani, ao time do Motorhome, Mafra, Mafrinha, Jéssica e Renato, que fizeram um Rally tão duro quanto o nosso.
Dos amigos e parceiros da paixão pelo automobilismo.
Dos amigos e parceiros da paixão pelo Rally Cross Country em duas e quatro rodas forjados pelo grande MEM, no fantástico Rally dos Sertões.
Dos amigos e parceiros da paixão pela aventura e pela vida.
Da Vanessa, cúmplice da minha vida, que amo muito. Dos meus filhos, André e Stella que souberam entender que as vezes a busca de um sonho, uma aventura, pode ser muito individual, egoísta até. Sem vocês, sem um lugar tão fantástico para voltar, esta jornada que bateu fundo na alma, teria feito pouco sentido.

Sylvio de Barros