Conversamos com Youssef Haddad e Guiga Spinelli sobre tudo o que aconteceu no Dakar este ano. Confira aqui esta entrevista exclusiva para o Tulipa Rally.

 

Tulipa Rally: Na sua opinião, este foi o Dakar mais difícil, como estavam esperando?

Youssef Haddad: Não acho que foi o mais difícil. Foi difícil, principalmente pelas mudanças climáticas e pelo tempo percorrido na altitude, porém não se viu notícias de carros atolados, que é a característica principal do Dakar, isso ocorreu principalmente pelas areias estarem úmidas e, consequentemente, mais duras e mais fáceis de transpor. Soma-se a isso o cancelamento de 2 dias completos e mais alguns quilômetros parciais. Enfim, a organização não conseguiu colocar em prática a prova que preparou.

Guiga Spinelli: Acho que foi um Dakar difícil como sempre, mas perdeu muito, pois os dias mais críticos foram cancelados. Certamente, com esses dias válidos teria sido bem mais difícil. A navegação foi muito dificultada pela nova regra de operação do GPS, acho que foi o que aumentou a dificuldade desse ano e influenciou muito no resultado dos dias.

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TR: A chuva vem castigando a região por onde o Dakar passou nas últimas edições. Ela foi a grande vilã deste ano?

YH: Com certeza, ano passado já teve o cancelamento de uma especial e de alguns trechos devido à chuva. Fora a mudança dos terrenos, piorando muito os trechos de terra que viram lama e melhorando os trechos de areia que ficam mais compactas. A ASO precisa repensar o Dakar nessa época em região de tanta chuva.

GS: Já não é o primeiro ano que a chuva atrapalha na Argentina e Bolívia. Esse ano acho que foi ainda mais crítico mas não podemos deixar de lembrar a tromba d’Água que nos tirou do Rally em 2014. Essa época naquelas regiões o risco de chuva é sempre grande.

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TR: O cancelamento de etapas, ainda mais do “Super Belén“, uma das mais esperadas, tirou um pouco o brilho do Dakar 2017?

YH: Sim, se lembrar dos anos anteriores, as especiais na região de Fiambala sempre foram decisivas. Aquele deserto é único no mundo, com características de extrema dificuldade, com areias muito claras, finas e quentes.

GS: Cancelamento de etapas sempre tira um pouco do brilho… a Super Belen sem duvida faria muita diferença na prova. Foi uma pena o cancelamento.

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TR: Qual foi a etapa de maior dificuldade na sua visão?

YH: A quarta especial onde correram uma parte na Argentina e outra na Bolívia, onde enfrentaram uma diferença de altitude e de temperaturas surreais. Acredito que foi a mais complicada.

GS: Não teve um dia isolado de grande dificuldade. Sem a Super Belen acho que houve maior equilíbrio. Mas os dias de altitudes foram bem difíceis.

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TR: E a mais tranquila?

YH: Sem dúvida os 64 km do último dia.

GS: A mais tranquila é sempre a primeira ou última ss (especial).

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TR: Qual competidor mais se destacou na prova e por quê?

YH: Pra mim o nome desse Dakar foi Daniel Elena, navegador de Sebastian Loeb. Digo isso pois as maiores perdas de tempo dessa edição foram em erros de roteiro e Daniel foi o que talvez menos errou, se considerarmos o ritmo alucinante que eles vinham andando e que é apenas o segundo Dakar de Daniel, pra mim foi ele o destaque.

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TR: A Peugeot levou os 3 primeiros lugares nos carros. O DKR3008 é tudo isso mesmo ou divide a responsabilidade com o dream team da Peugeot?

YH: É tudo isso sim, o carro está em um nível superior à concorrência, claro que a qualidade das duplas ajuda muito, porém, se lembrar de dois anos atrás, as mesmas duplas não conseguiam andar entre os 5. Aliás, Despres está longe de ser top 3 entre os pilotos.

GS: A Peugeot tem tudo fantástico! Patrocínio, budget, equipe, carros e duplas. É um conjunto top. Bem acima da média de todas outras equipes.

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TR: O que falta para a Toyota e a Mini baterem os Peugeots?

YH: Falta ter uma reviravolta no regulamento ou a Peugeot cansar de ganhar e sair do Dakar, assim como a VW fez. Nesse atual regulamento, por mais que as outras marcas tentem seguir o caminho dos 4×2, vão sempre estar atras dos Peugeot. Pois eles estão há 3 anos desenvolvendo, com um time muito bem estruturado.

GS: A Toyota e Mini por enquanto tem um conceito de carro bem diferente da Peugeot. Além de menos dinheiro e menos duplas top, a Toyota vem crescendo mais rápido e já está no nível da Mini, embora nunca tenha ganhado o Dakar. E tem hoje uma dupla espetacular, que é o Nasser com Matthieu. Mas ambas precisam de muito mais para chegar ao nível da Peugeot.

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TR: Os brasileiros, Sylvio e Capoani, o que falar da sua estreia no Dakar?

YH: Existem inúmeras formas de vencer no Dakar, tudo depende do que o competidor se propõem. Sylvio e Capoani, por tudo que envolveu a ida deles, a decisão na última hora, a falta de treinos e principalmente pelo o que eles colocaram de meta, que era terminar o Dakar entre os Top20. Podemos afirmar com tranquilidade que eles venceram, alcançaram com maestria seus objetivos. Isso que importa.

GS: Acho que o Sylvio e Capoani fizeram uma boa estreia. Só terminar o primeiro ano já é ótimo. Tiveram a ajuda de estar numa excelente equipe com um carro muito resistente e rápido. A dupla tinha zero de experiência em fora de estrada de carro, então isso sem dúvida complica a navegação e ritmo de pilotagem. E não treinaram nada com o carro, e muito menos nesse tipo de Rally. Levando tudo isso em conta o resultado foi ótimo.

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TR: E o título inédito de Leandro e Lourival?

YH: Leandro é uma pessoa que sempre admirei, pela forma que ele encara o rali. Sua forma de se divertir, competindo. Sem colocar o peso de resultados em suas costas. Talvez essa falta de peso que o deixou tão leve para ganhar de forma histórica e merecida esse Dakar. Já o Lourival é um apaixonado, um maluco pelo rali, que gosta de estar lá correndo mais do que qualquer coisa, basta ver em quais carros ele já disputou o Dakar. Mas essa maluquice o levou ao título. Título que tinha que ser dele, por tudo que já fez e representa para o rali nacional. Aliás,a dupla formou uma sincronia muito bacana. Espero vê-los em breve entre os carros.

GS: Leandro e Lourival conquistaram um título super importante para o Rally brasileiro. Fizeram um Rally com calma e inteligência. Mesmo estando numa categoria estreante e com um grid muito pequeno com apenas oito UTV ‘s o resultado tem um valor incrível. Foram com um objetivo e mantiveram o foco. Num Rally como Dakar nem sempre vence o mais rápido. Eles fizeram tudo como deveria e estavam numa equipe oficial da Polaris com a melhor estrutura possível. Isso também sempre ajuda muito. Merecem todos nossos aplausos!

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TR: Pra fechar, uma pergunta pro Youssef: depois de um excelente trabalho durante as duas semanas, o que é melhor? Youssef como navegador ou comentarista?

YH: Eu sou um profissional do rali, respiro isso todos os dias, como engenheiro da Ralliart. Agora, navegar é minha paixão, e se esse ano não pude estar no Dakar, tentei com meus textos matar um pouco dessa vontade de lá estar e ao mesmo tempo dividir um pouco da minha experiência.

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Queremos agradecer demais aos nossos ídolos, amigos e excelentes profissionais por toda a disponibilidade e a enorme ajuda que Youssef Haddad e Guiga Spinelli nos deram, não só durante todo o Dakar 2017, mas de todas as vezes que precisamos de uma visão de quem conhece a fundo o esporte que tanto amamos.

Muito obrigado por ajudar-nos a fazer o Tulipa Rally acontecer.