Tudo mundo que faz rally aqui no Brasil sempre tem curiosidade de saber se isso existe em outros países e como funciona. Nossos amigos Carol e Tico contam pra gente como foi fazer um rally na Espanha e como funciona o off road por lá. Divirtam-se!

 

Por Carolina Cadavid e Tico Fortes

O espanhol é um apaixonado por corridas de velocidade. Seja bicicleta, carro, moto ou Fórmula 1, onde houver um cronômetro e uma disputa pelos primeiros lugares, haverá uma equipe vermelha e amarela.

Ao visitar a página oficial da “Real Federación Española de Automobilismo” (www.rfeda.es), descobre-se que há vários Campeonatos na agenda de Rallyes. Uma das modalidades com mais competidores é o Rallye de Históricos ou Clássicos, isto é, provas para carros com mais de trinta anos de idade. Esse tipo de Rallye é muito popular no país e reúne verdadeiras relíquias automotivas (e alguns carros que são só velhos mesmo…). Recentemente, aconteceram duas das mais tradicionais provas españolas, Rally de España Histórico e o Rallye da Costa Brava.

 

Os Rallyes para carros 4×4, aqui conhecidos como “Todo Terreno”, contam com duas modalidades: velocidade e regularidade. Segundo apuramos com Comissários da RFEDA, competidores e organizadores de provas, a España tem poucos campeonatos de rallye 4×4 porque é muito difícil de se obter licenças – especialmente ambientais – para sua realização. Isso é uma pena porque o país tem  ótimos terrenos para rallyes 4×4 e muitos proprietários de carros “todo terreno”, que poderiam se divertir em provas de regularidade. Há diversas “trilhas” populares na Península Ibérica, mas ficam reservadas apenas para passeios de 4×4, sem competições.

Antes mesmo de chegarmos à Espanha, já sabíamos que participaríamos do Campeonato Espanhol de “Todo Terreno”. Como o Tanque, nosso carro preparado para Rallyes, não cruzou o Atlântico conosco, fomos em busca de um novo companheiro, um Rocinante motorizado que nos levasse a desbravar as terras do Rey.

Encontramos nosso novo carro em Tarragona, pertinho de casa. O carro estava acostumado com neve e montanhas e contava com pneus BF AT. Em poucos dias, Tico já passeava com nosso novo amigo nas montanhas da Cataluña e na neve.

Como não sabíamos como seriam as provas do Campeonato Espanhol, optamos por não equipar o carro com novas molas e suspensão para a primeira Etapa. Não imaginávamos a pedreira que nos esperava…

 

O Campeonato Espanhol

Preparativos/Inscrição

Assim como no Brasil é preciso inscrever-se na CBA para participar de competições automobilísticas, aqui também é obrigatório a inscrição na  “Real Federación Española de Automobilismo”. Para competidores que não têm nacionalidade espanhola, a RFEDA consultará sua equivalente no país de origem do competidor para verificar se não há quaisquer impedimentos à inscrição suplementar. A inscrição também está condicionada à apresentação de um Atestado de Saúde, que só pode ser elaborado por médicos ou clínicas especializadas em medicina esportiva.

A prova

A primeira etapa do Campeonato Espanhol Todo Terreno aconteceu em Lorca, no sul da Espanha. Muito diferente do que estávamos acostumados e muito bom!– isso é o que podemos dizer de nossa primeira experiência no Campeonato.

As modalidades velocidade e regularidade acontecem na mesma cidade e parcialmente no mesmo percurso (velocidade tem uma distância maior a ser percorrida). Essa particularidade faz da experiência de correr um rallye de regularidade na Espanha algo muito diferente: o terreno da prova é bastante diversificado e acidentado, justamente para exigir o melhor da pilotagem na velocidade. Para os pilotos de regularidade, o desafio é enorme: como é quase impossível andar nas médias propostas, eventuais atrasos são motivo para tirar tempo correndo forte como correm os pilotos de velocidade – mas isso sem ter o carro preparado para aquelas condições de terreno. E mais: como a largada da prova de velocidade ocorre minutos antes da regularidade, quando um competidor de velocidade se perde na navegação ou tem problemas mecânicos, ao retomar a prova ele “entra” no caminho dos competidores de regularidade – e pisando fundo!

Se do ponto de vista da pilotagem a prova foi ultra emocionante, para navegação não foi tão desafiadora. Como o percurso é o mesmo da velocidade, as “pegadinhas” e os “laços” são mais raros e o trabalho do navegador está mais focado na correção do hodômetro – e em tentar manter sua integridade física contanto apenas com o cinto normal do carro.

Outro ponto bastante interessante e diferente é a ausência de neutros e deslocamentos durante a prova. Cada Etapa é corrida do começo ao fim, sem nenhuma pausa, nem sequer os minutinhos para xixi e tomar uma água. É uma prova de resistência – e nosso piloto não resistiu e simplesmente parou o carro para o xixi mais rápido da história, aproveitando um trecho em que a média era mais baixa. Melhor atrasar um pouquinho e retomar depois do que correr o risco de certos “vazamentos”…

As planilhas são entregues na noite anterior à largada e devem ser devolvidas à RFEDA ao final da Etapa. Elas não contam com indicação de velocidades, tempos e mudanças de média. Esses dados são entregues num documento separado (ficha técnica), com indicação de quilometragem e de médias. Cabe à equipe calcular a variável tempo.

Os equipamentos são parecidos com os que usamos no Brasil, mas como nossa mudança com as caixas onde estavam o Colosso e o kit piloto ainda não tinha chegado na Espanha, fizemos essa primeira Etapa com ajuda (meio capenga, diga-se) apenas de um programa usado na categoria brasileira “light” e do GPS. Difícil correr sem aparelhos de aferição precisos. Para as próximas etapas, usaremos os equipamentos que tínhamos no Brasil.

Por fim, uma grande diferença é o sistema de rastro e apuração. Aqui, o GPS que vai no carro pode ser um aliado de peso porque a apuração é feita simultaneamente às passagens pelos PCS. Isso significa que a equipe pode avaliar sua performance ao vivo e corrigir eventuais erros ainda durante a prova. Pode, ainda, acompanhar a pontuação dos concorrentes. Esse modelo de apuração ao vivo nos pareceu uma vantagem importante dos rallyes espanhóis e que seria uma ótima aquisição para as provas no Brasil.

Um ponto que também nos chamou a atenção foi o grau de profissionalismo da turma que corre velocidade. As equipes contam com pilotos com experiência no Dakar, em rallyes 4×4 na África e há equipes de fora da Espanha (Inglaterra e Portugal). Para se ter uma ideia, a  equipe da Inglaterra viaja o ano todo atrás de provas de rallye e logo após a premiação, já caiu na estrada rumo ao Saara para mais um campeonato.

 

Resultados

No primeiro dia de prova, conquistamos um louvável primeiro lugar. Apesar dos problemas derivados da falta de precisão do GPS e de um erro de navegação, nosso piloto garantiu a regularidade mesmo nos terrenos mais agressivos. Tivemos “encontros” não muito agradáveis com equipes da modalidade de velocidade durante a prova (lembram-se que dissemos que as duas modalidades correm “juntas”? Pois é, quando os “rapidinhos” se perdem, eles entram na nossa prova de regularidade…) e tivemos que descer do carro para ajudar a desatolar um carro de velocidade de uma erosão. Na hora de tirar o atraso, vivemos o momento de maior adrenalina em rallyes: correr lado a lado dos carros de velocidade e no mesmo ritmo. Que emocionante!

No segundo dia, passamos um bom tempo de prova novamente em primeiro lugar, mas um erro ao transferir os dados de quilometragens e médias para o programa de pilotagem/navegação nos deixou muito atrasados. Ao usar o sistema de apuração simultânea, acabamos nos atrapalhando e o que era um pequeno atraso virou um caos, com erro de navegação e bate-cabeça dentro do carro. Por fim, conseguimos voltar para a prova, mas o primeiro lugar escapou. Ficamos com o terceiro lugar geral, o que nos garantiu um lugar no pódio. Nada melhor do que voltar para casa com um troféu logo na estréia.

 

O Campeonato tem mais seis Etapas em diversas regiões da Espanha. Agora já preparamos melhor o carro com um jogo de molas mais resistente e um chapão (fundamentais para aguentar o tipo de terreno que nos espera e as médias altas das provas) e teremos nossos equipamentos de navegação de precisão.

 

Resumo das principais diferenças do Rallye 4×4 na Espanha

  • As provas de velocidade e de regularidade são realizadas na mesma cidade e nos mesmos percursos (a de velocidade, além do percurso em comum, conta com percurso adicional).
  • São dois dias de prova, uma etapa por dia. Ambas as etapas ocorrem no mesmo percurso.
  • O percurso é muito acidentado e com alto grau de dificuldade de pilotagem. São pensados para a prova de velocidade, com seus carros super equipados.
  • A prova não tem tantos laços ou pegadinhas de navegação.
  • Não há divisão de categorias na modalidade Regularidade.
  • É permitido utilizar todo tipo de instrumento de navegação e cronometragem.
  • A prova não tem neutros ou deslocamentos, isto é, sem paradas para xixi …
  • As planilhas não contem indicações de velocidades e tempos. A Organização entrega um documento com as quilometragens e as médias e as equipes têm que calcular o tempo ideial
  • Equipamentos de segurança: o uso de capacetes é obrigatório inclusive na modalidade regularidade.
  • Sistema de apuração de resultados simultâneo à realização da prova. É possível acompanhar a apuração a cada PC superado.