Ela tem 16 anos e seis meses, nasceu em Carlsbad, Califórnia, e carrega um sobrenome latino que já ecoa no circuito. Ao entrar na chave principal do US Open 2025, Julieta Pareja derruba um marco que parecia intocável: torna-se a jogadora mais jovem da Era Aberta a disputar o torneio nova-iorquino, superando a idade de estreia de Tracy Austin. E estreia com pedreira: a atual nº 9 do mundo e campeã de Grand Slam, Elena Rybakina, logo na primeira rodada.
O feito não vem de um laboratório de tênis de elite nem de uma academia milionária. Pareja cresceu batendo bola em quadras públicas, dividindo espaço e sonhos com as irmãs mais velhas, Antonia e Raquel, também competitivas. Filha de pais colombianos — Pablo, americano de primeira geração, e Adriana, nascida em Bogotá — ela leva para a quadra uma mistura de disciplina americana e garra latina. Em 2025, essa mistura explodiu em resultados, visibilidade e números.
Em abril, em Bogotá, tudo se encaixou. Entrando como convidada no qualifying, ranqueada então perto do 550º lugar, Pareja ganhou a primeira partida da carreira em nível WTA e emendou uma sequência até a semifinal — a mais jovem a chegar tão longe desde Coco Gauff em Linz, 2019. Foi o empurrão que a fez saltar para o top 350 e, semanas mais tarde, encostar no 317º posto da WTA em simples. Para quem ainda divide o calendário entre juvenil e profissional, é um avanço incomum de ritmo e maturidade.
Nada disso veio do nada. Em 2024, ela já tinha mostrado o caminho com um título de ITF W15 em Rancho Santa Fe, vitória que costuma ser um primeiro degrau para quem busca pontuar de verdade no circuito. No US Open do ano passado, cravou vitórias sobre Kayla Day e Lucrezia Stefanini no qualificatório e parou só na rodada final, sinal claro de que a diferença física e de experiência podia ser compensada por leitura de jogo e sangue frio.
Quem é a adolescente que virou referência para quem veio das quadras públicas
Há símbolos que contam bem uma história. No caso de Pareja, a origem em quadras públicas não é detalhe de romance: é identidade competitiva. Treinos sem glamour, bola pesada quando dá, e muito jogo entre irmãs. Esse ambiente produz atletas que entendem cedo de adaptação — vento, piso quente, barulho — e que chegam ao circuito com anticorpos para a pressão.
A conexão colombiana também não é só herança cultural. Bogotá foi o cenário onde a americana, nascida em 18 de fevereiro de 2009, cruzou a primeira fronteira grande da carreira: de promessa do juvenil a peça real no tabuleiro da WTA. Ali, como convidada no quali, virou manchete por ser a primeira jogadora nascida em 2009 a vencer uma partida de torneio de nível tour e por avançar até a semifinal. Para uma adolescente que até outro dia disputava J100 e J200, a curva foi íngreme.
No juvenil, o currículo é pesado e recente. Em julho de 2024, Pareja emendou títulos na J100 Copa Ciudad e na J200 Copa Liga de Tenis de Bogotá. Em 2025, começou vencendo a J300 Copa Barranquilla, em janeiro, e a J300 Fila International Junior Championships, em Indian Wells. No meio da temporada de saibro europeia, fez quartas de final em simples e duplas em Roland Garros, ganhou a J300 Lexus British Open, em Roehampton, e fechou julho em Wimbledon com vice em simples e em duplas. Em paralelo, defendeu os Estados Unidos na Junior Billie Jean King Cup ao lado de Tyra Caterina Grant e Kristina Penickova — e saiu campeã.
Os números ajudam a explicar a escalada. Ela atingiu o 7º lugar no ranking mundial juvenil em 9 de junho de 2025, somou cerca de 90 vitórias na carreira antes de completar 17 anos e já figura no top 350 da WTA em simples, com ponto alto em 317. Em duplas, ainda engatinha (ranking próximo de 1.489), o que reforça a leitura: o plano A é simples, o foco está em desenvolver o jogo de base para bater de frente no circuito principal.
Qual é o pacote técnico? Não há estatística oficial para cada golpe, mas a leitura de quadra aparece como marca. Pareja gosta de acelerar do forehand, varia altura e profundidade para tirar tempo, e segura bem a pressão em break points — qualidade que se repetiu nas campanhas em Bogotá e em Wimbledon júnior. O saque ainda busca potência média das top 20, mas a porcentagem de primeiro serviço tende a ser alta para a idade, o suficiente para construir pontos curtos quando entra. Na defesa, se mexe leve de pernas e antecipa bem o ângulo, recurso que será testado contra as melhores sacadoras do circuito.
Há um contexto que pesa (e protege). Desde os anos 1990, o circuito feminino opera com a chamada Age Eligibility Rule, que limita a quantidade de torneios de atletas com menos de 18 anos. Aos 16, Pareja ganha mais datas no calendário, mas ainda administra entradas com cuidado. Por isso, a escolha por torneios ITF de pontos acessíveis, alguns WTA 250 na superfície certa e um Grand Slam com convite estratégico faz parte de uma agenda pensada para somar ranking sem queimar etapas.
No US Open, a presença dela na chave principal vem por convite da organização — prática comum para jovens americanas que mostram resultados e chamam público. Em Nova York, isso tem efeito imediato: arquibancadas cheias nas quadras externas, manchetes, e um choque real com o nível de Grand Slam, onde cada primeiro set define o tipo de noite que virá. O palco não assusta, mas acelera a curva de aprendizado.
O peso simbólico também conta. Nova York é a capital latina dos Estados Unidos e, a cada edição, o público de Queens abraça histórias com sotaque e família na arquibancada. A mistura de inglês e espanhol nas entrevistas, a referência a Bogotá e o caminho pelas quadras públicas compõem uma narrativa que atrai atenção para além do nicho do tênis. Para a USTA, é ouro: diversidade, base popular e resultado esportivo na mesma foto.
Em meio à repercussão, a adolescente mantém o discurso simples: empolgação e foco curto. "Estou muito animada, feliz por poder jogar contra jogadoras de ranking alto que eu via na TV", disse recentemente. O recorte é bom para entender a cabeça: respeito pelo palco, zero deslumbramento com o hype.

O primeiro teste: Rybakina, saque pesado e uma janela de oportunidade
Estrear contra Elena Rybakina é encarar logo de cara um dos pacotes mais duros do circuito: saque que passa de 190 km/h, backhand limpo na linha e frieza de campeã de Wimbledon. Como minimizar o impacto? Dois caminhos são quase óbvios: aumentar a taxa de devoluções em jogo para alongar rallies e variar a posição na devolução para bagunçar o tempo da rival. Se Pareja conseguir transformar 10% dos games de serviço da cazaque em batalhas de 6, 7, 8 pontos, o placar fica respirável.
A quadra e o horário influenciam. Em jogos diurnos, a Arthur Ashe ou a Louis Armstrong ficam rápidas e a bola corre — bom para sacadoras. De noite, a umidade segura mais o quique, o que pode ajudar a devolução. O sorteio da quadra, a ordem de jogo e o clima no dia viram detalhes enormes numa estreia desse tipo.
Há também a parte mental. Rybakina joga com a autoridade de quem já levantou troféu de Slam e sabe controlar a maré de um primeiro set apertado. Para Pareja, a meta não é “acertar tudo”; é manter o placar pegado, suportar a avalanche inicial de winners e aproveitar as poucas janelas que surgem — normalmente, no segundo saque da adversária ou em momentos de transição para a rede. Se a adolescente levar a partida para trocas de ritmo e empurrar a rival para o corner do forehand, pode aparecer espaço.
O que diz o histórico recente? Nos últimos 12 meses, Pareja segurou partidas longas no juvenil e venceu profissionais do top 150 no quali do US Open 2024. Em Bogotá, suportou pressão de torcida, altitude e piso mais lento. Esse pacote de experiências, ainda que curto, é útil em Nova York, onde o barulho e a energia podem tanto acelerar quanto travar uma estreia.
A chave do US Open raramente é gentil com estreantes, e ninguém mente sobre a pancada inicial. Mas Grand Slam também é caminho de surpresas, e a história recente mostrou que adolescentes podem atropelar o roteiro — Emma Raducanu, em 2021, saiu do quali para o título; Gauff, em 2019, virou fenômeno ainda no meio da adolescência. Não é receita, é referência: quando a confiança encontra uma semana de saque encaixado e devolução viva, tudo fica menos previsível.
Independentemente do placar, o ganho é imediato. Entrar na chave principal significa pontuação robusta para o ranking, experiência em melhor de três sets sob holofotes, e um salto de visibilidade que vira convite para torneios de outono. A cada round, o corpo aprende a rotina: aquecimento, call room, TV, entrevista em quadra, atenção à hidratação. É logística e jogo ao mesmo tempo.
Para quem acompanha a base, Pareja vira também um espelho. Não por ser um prodígio isolado, mas por representar um caminho diferente: o das quadras públicas, de treinos com família e de paciência para subir degrau por degrau. Analistas do circuito vêm destacando justamente isso — a passagem de um contexto pouco convencional para o palco principal — como um sinal de que a pirâmide do tênis está, enfim, mais porosa.
Há muito por lapidar: ganhar mais peso no primeiro saque, proteger melhor o segundo, afiar a transição à rede para encurtar pontos em quadra rápida. Nada fora da curva para 16 anos. O essencial ela já mostrou: competir sem medo, construir pontos com ideia clara e segurar o pulso quando o placar esquenta. Em Nova York, isso não garante vitória, mas garante jogo.
Os próximos dias em Flushing Meadows vão contar melhor o que essa estreia significa. A primeira rodada contra Rybakina deve acontecer entre segunda e terça, com atenção às quadras principais e à ordem de jogo. Se vier a surpresa, a narrativa explode. Se não vier, o aprendizado chega do mesmo jeito — e a temporada ainda guarda semanas suficientes para transformar essa estreia histórica em base sólida para 2026.
Por enquanto, a história já tem peso: a adolescente que começou em quadras públicas de Carlsbad, cresceu entre torneios juvenis na Colômbia e nos Estados Unidos, ganhou manchetes em Bogotá e agora pisa no Grand Slam da casa como a mais jovem da Era Aberta em Nova York. É o tipo de trajetória que mexe com o público, inspira quem está começando e lembra ao circuito que um talento novo pode aparecer de onde menos se espera.