Quase 50 milhões de brasileiros têm dinheiro parado em contas que nem sabem que existem. Segundo dados divulgados pelo Banco Central do Brasil em 7 de outubro de 2025, R$ 10,46 bilhões estão à espera de resgate — e a maior parte disso é dinheiro pequeno, quase insignificante: 64% dos beneficiários têm valores de até R$ 10. Isso não é um erro de sistema. Não é um bug. É o resultado de contas inativas, heranças não reclamadas, trocas de banco, esquecimento ou até a morte de quem abriu a conta. E, curiosamente, o que parece ser um detalhe insignificante pode mudar a vida de quem está esperando por esse dinheiro — mesmo que seja só R$ 7,50.
Quem tem direito e quanto é realmente possível resgatar?
Os números são impressionantes: 48.416.909 pessoas físicas têm direito a R$ 8,086 bilhões. Outras 4.564.506 empresas somam R$ 2,376 bilhões. O total ultrapassa R$ 10,46 bilhões — e isso só é o que ainda está lá. Já foram devolvidos R$ 11,74 bilhões desde o lançamento do Sistema de Valores a Receber (SVR), em 2022. Somando o que já saiu e o que ainda está parado, o volume total de recursos envolvidos chega a R$ 21,94 bilhões. É mais do que o orçamento anual de alguns ministérios.
Os valores estão distribuídos de forma desigual. A maioria absoluta (64,59%) está em faixas de até R$ 10. Outros 24% estão entre R$ 10,01 e R$ 100. Só 1,76% dos beneficiários têm mais de R$ 1.000. E mesmo esse 1,76% pode representar alguém que perdeu uma conta de herança, um seguro não resgatado ou um reembolso de serviço cancelado. O que chama atenção é que, mesmo com tantos milhões de pessoas envolvidas, a grande maioria nem sabe que existe esse sistema.
Quem guarda esse dinheiro e por quê?
Os bancos são os maiores detentores: R$ 5,9 bilhões estão em instituições financeiras tradicionais. Outros R$ 3,1 bilhões estão em administradoras de consórcio — um setor que cresceu exponencialmente nos últimos anos, mas onde muitos clientes abandonam contratos sem fechar contas. As cooperativas de crédito somam R$ 864 milhões. E há ainda R$ 846 milhões em outras instituições não bancárias, como financeiras e corretoras de seguros.
Esses valores não desaparecem. Eles ficam em contas inativas, bloqueadas por falta de movimentação por mais de dois anos. A lei exige que as instituições mantenham os recursos por tempo indeterminado — mas também não fazem nenhum esforço para avisar os titulares. É como se o dinheiro estivesse em uma gaveta esquecida, e ninguém tivesse a chave.
O que mudou em 2025? O sistema agora busca por você
Até 2024, era preciso acessar o site, digitar CPF ou CNPJ, e fazer a busca manual. Muitos desistiam. Em 2025, o Banco Central do Brasil lançou uma nova funcionalidade: a solicitação automática. É opcional. Mas, se o cidadão ativar, o sistema passa a verificar mensalmente se há novos valores em seu nome — e, se houver, já inicia o processo de devolução. O dinheiro vai direto para a conta corrente, via Pix, sem precisar de mais nenhuma ação.
“O propósito é facilitar ainda mais a vida do cidadão, que não precisará consultar o sistema periodicamente nem registrar manualmente a solicitação de cada valor que existe em seu nome”, explicou o BC. Mas atenção: isso só funciona se você tiver conta nível ouro ou prata no Portal Gov.br e tiver ativo o cadastro de dois fatores. E mesmo assim, o Banco Central não envia e-mail, SMS ou ligações. Nenhum aviso. Se o dinheiro cair, você só vai saber quando olhar o extrato.
Por que o governo quer esse dinheiro? E será que ele some?
Em setembro de 2024, o Congresso aprovou uma lei que autorizava o Tesouro Nacional a recolher os valores não resgatados até 2027 — como compensação pela desoneração da folha de pagamentos. O prazo para resgate, na época, foi mal interpretado como “data limite”. Muita gente achou que perderia o direito. Mas o Ministério da Fazenda esclareceu: não há prazo. Nenhum valor será apagado. Nenhum recurso será perdido. O dinheiro continua lá, disponível, para sempre.
Isso é crucial. O sistema não é um “esquecimento legalizado”. É um mecanismo de proteção. Mesmo que o titular morra, os herdeiros podem resgatar. Basta apresentar a documentação. O SVR foi feito para ser eterno.
Atenção: golpes estão em alta
Com tantas pessoas buscando esse dinheiro, os golpistas entraram em ação. Mensagens falsas circulam no WhatsApp, dizendo que “um funcionário do Banco Central” vai ajudar a resgatar. Outros sites falsos pedem dados bancários. Alguns até cobram “taxa de processamento”.
O Banco Central do Brasil é categórico: “Todos os serviços do Valores a Receber são totalmente gratuitos. Nenhum funcionário entra em contato para tratar sobre valores a receber ou para confirmar dados pessoais”. O único site oficial é valoresareceber.bcb.gov.br. Não há app. Não há telefone. Não há intermediários.
Se alguém te ligar ou mandar um link, desconfie. É golpe. O dinheiro não vai sair do nada. E se ele vier, será direto da sua antiga instituição financeira — sem intermediários.
Como procurar seu dinheiro — passo a passo
- Acesse valoresareceber.bcb.gov.br (nunca por link enviado por terceiros).
- Logue no Portal Gov.br com conta nível ouro ou prata.
- Ative a verificação em duas etapas (se ainda não tiver).
- Busque por CPF ou CNPJ.
- Se houver valores, clique em “Solicitar Devolução”.
- Escolha se quer ativar a busca automática (recomendado).
- Esperar o crédito na conta — sem avisos, sem ligações, sem surpresas.
Frequently Asked Questions
Posso resgatar o dinheiro mesmo se a conta estiver há anos inativa?
Sim. Não há prazo para resgate. Mesmo que a conta tenha sido encerrada há 15 anos, o valor ainda está disponível no sistema. O Banco Central exige que instituições financeiras mantenham os recursos indefinidamente. Basta comprovar sua identidade e o vínculo com a conta original — mesmo que ela tenha sido fechada.
E se a pessoa que tinha a conta já morreu? Os herdeiros conseguem resgatar?
Sim. Herdeiros podem solicitar o resgate com a apresentação de documento de inventário ou certidão de óbito e comprovante de vinculação. O sistema permite consultas por CPF de falecidos, e o valor é transferido para a conta do herdeiro. Cerca de 12% dos registros no SVR são de pessoas falecidas — e muitos familiares nem sabem que existem esses recursos.
Por que o valor é tão pequeno? R$ 10 é pouco para tanto esforço.
Muitos desses valores vêm de pequenos créditos: restituições de tarifas, saldos de cartões pré-pagos, reembolsos de seguros ou juros de poupança não sacados. Em 2024, o Banco Central confirmou que 64% dos beneficiários têm menos de R$ 10 — mas somados, esses pequenos valores somam R$ 6,7 bilhões. É dinheiro real, e cada centavo conta, especialmente para quem vive na base da pirâmide.
O dinheiro volta para a conta original ou para qualquer conta que eu escolher?
O resgate é feito via Pix para a conta corrente ou poupança que você informar no Portal Gov.br — não necessariamente a antiga. Isso facilita muito: mesmo que você tenha trocado de banco, pode receber o valor na conta atual. Mas é essencial que a conta esteja ativa e vinculada ao seu CPF.
Se eu ativar a busca automática, vou receber um aviso quando o dinheiro cair?
Não. O Banco Central não envia notificações. O crédito é feito diretamente pela instituição financeira, e você só vai saber quando verificar seu extrato. Por isso, é importante manter o acesso ao Portal Gov.br e checar sua conta periodicamente, mesmo com a busca automática ativada.
Existe algum risco de perder o direito ao dinheiro se não fizer nada?
Nenhum. O dinheiro não some. Não há prazo de prescrição. A lei de 2024 permitiu que o governo pudesse recolher os valores, mas isso nunca foi implementado. O Ministério da Fazenda reforçou que o resgate é eterno. O dinheiro está guardado, e só quem tem direito pode sacar — e isso pode ser feito a qualquer momento, mesmo daqui a 20 anos.